A Favela é Lugar de Paz

Há muito tempo ouço um som de dor, sofrimento e angústia daqueles que vivem na minha quebrada. Pessoas inocentes que saem de casa cedo para adquirir seu sustento e, às vezes, sem o dinheiro de passagem, mas que pagam a conta dos corruptos. Muitas dessas pessoas são mulheres que trabalham como faxineiras em casas de família e, sem ter o que comer, assistem esses familiares desperdiçarem comida por desdém.

Estou cansada de ouvir sons de balas que saem dos gatilhos, mas o que mais me assusta não é o som, e sim o efeito que elas causam. Lágrimas de sangue escorrendo, crianças assustadas, vizinhos aterrorizados e mais “um cria” que partiu pelas mãos de homens fardados ou pelas mãos do tráfico de drogas. Escutamos o grito do silêncio que constrói um muro de tristeza, sofrimento e choro de uma criança negra, de cabelos crespos e que tenta mudar sua identidade, sua raça, sua cor para se igualar a uma outra realidade. Tudo isso para tirar a dor que sente, todo dia, causada pelo racismo e por pessoas que não entendem que raça e etnia não definem caráter e que nosso sangue possui a mesma cor. Essas pessoas que se julgam mais importantes que as outras e que riem da gente por pressupor que somos ignorantes só por morar em bairros luxuosos, estão erradas. Não somos fracassados! Agora, será que eles conseguiriam suportar o descaso que a população periférica vivencia todos os dias?

Eles estão equivocados por considerar que o dinheiro compra tudo e que uma pessoa de periferia não tem condições intelectuais de ir muito longe. Presenciar um/uma jovem periférico(a) passar nas provas que a burguesia têm dificuldades e sobreviver às estatísticas ferem o orgulho desse grupo. Eles podem nos tirar tudo, menos nosso conhecimento, nossa esperança e nossa força de vontade. Não escuto o som de abusos domiciliares, abuso no trabalho, o grito dessas vítimas por vergonha, por medo ou, simplesmente, por saberem que nada será feito ou nada será resolvido. Isso porque nossos governantes não olham com cuidado para os moradores da periferia. O que mais escuto é o som do cacetete do homem fardado, que capturou mais “um cria”, um jovem, por julgar que suas roupas são vestimenta de bandido. Esquecendo que os bandidos de verdade são os de colarinhos brancos, os ricos e, também, podem andar fardados. Por isso, é preciso e urgente lembrar que a favela é lugar de paz.


Vitória Michele de Souza Neves - 15 anos

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Texto elaborado em Orientação Social, sob a responsabilidade da educadora Kelly Cristina, na atividade de produção de texto a partir do vídeo elaborado na oficina de Stop Motion, conduzido pela arte educadora Daiane Gomes. Neste foi trabalhada a perspectiva de um olhar desnudado da concepção de favela exposto pela mídia. Os jovens participantes deste grupo foram Junior, Stephanie, Erick Souza, Josiane e Gustavo Vieira.

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